segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

É doando que se esquece


Por Jânsen Leiros Jr.


"12 Disse também ao que o havia convidado: Quando deres um jantar, ou uma ceia, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem os vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar, e te seja isso retribuído. 13 Mas quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos; 14 e serás bem-aventurado; porque eles não têm com que te retribuir; pois retribuído te será na ressurreição dos justos."
Lucas 14:12-14 - JFA

Normalmente esse texto faria parte do exercício anterior, uma vez que narra uma continuidade do que se passa no evento para o qual Jesus havia sido convidado. Um banquete fora oferecido por um dos principais fariseus, e o Mestre estava ali, como sempre, ensinando o evangelho, confrontando comportamentos e costumes dos religiosos proeminentes. E esse texto isolamos propositalmente, porque trás relevantes ensinamentos quanto as atitudes livres de intenções camufladas.

Provavelmente Jesus percebeu o nível social das pessoas que se encontravam naquele evento. Pessoas que por suas condições e proeminências, haviam sido convidadas porque fazia parte do protocolo social, se convidarem mutuamente para banquetes; fulano nos convidou, agora precisaremos convidá-lo também, conversariam os anfitriões. Não é mais ou menos assim mesmo até os dias de hoje? Vivemos de retribuições protocolares como sugere a etiqueta.

Há algo de errado nisso? De forma alguma. E nem mesmo Jesus está condenando tal hábito protocolar. Na verdade ele está apontando para uma outra conversa entre os anfitriões, uma conversa onde as intenções vão além de seguir uma etiqueta social; vamos convidar fulano porque assim seremos chamados por ele também. Ficará obrigado a isso. Uma conversa que expõe a lógica do fazer algo por alguém, para que por esse alguém nos seja retribuído. É para essa atitude que Jesus aponta; uma conveniência que pretende uma vantagem futura relevante. Uma barganha velada.

Agir em favor de quem pode retribuir o bem recebido, é pretender-se à recompensa, à retribuição. É convenientemente contar com o cumprimento de um protocolo que garante um retorno, um equilíbrio que não nos deixará no papel de quem só dá, sem nada receber. Não há qualquer altruísmo em oferecer banquete a quem nos pode pagar com a mesma moeda.

Pobres, aleijados, coxos e cegos, não eram exatamente o tipo de pessoa que pudessem retribuir qualquer convite que lhes fosse feito. Alijados do convívio social, marginalizados por suas presumida inutilidades, essa gente jamais seria capaz de oferecer de volta o que quer que fosse, pois tudo lhes era negado socialmente, a exceção de uma vida isolada e distante, sem qualquer envolvimento, cuidado ou olhar da sociedade. Quem lhes auxilia e socorre, não tem como esperar nada em troca.

Ao sugerir um convite aos desfavorecidos, Jesus dá ênfase às atitudes altruístas, de um amor doador. Fazer o bem a quem não nos pode recompensar. É um bem que vai sem volta. É um dar sem nada receber. É doar-se a si mesmo. Aliás, doação é via de uma só mão. Não se pretende à retribuição.

Isso mesmo! Poderia alguém concluir brilhantemente. Afinal, quem dá aos pobres empresta a Deus! Não! Eu replicaria, pois assim sendo, teríamos a lógica da retribuição mantida. Pior, estaríamos instituindo uma barganha com Deus. Darei aos pobres, pois receberei de Deus. Que provérbio popular infeliz...

E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que te retribuir; pois retribuído te será na ressurreição dos justos. Essa frase não sustenta uma barganha com Deus. De modo algum. Não diz que dando aos pobres receberemos recompensa de Deus. Diz antes que não precisamos agir com vistas a qualquer retribuição, de quem quer que seja, pois a nossa recompensa já está garantida na ressurreição dos justos, não por termos dado algo ou feito qualquer bem aos pobres, mas por termos sido salvos para toda boa obra[1]. Devemos considerar a salvação como toda recompensa a receber, à qual, inclusive, sequer fazemos justiça.

Não é difícil incorrer no erro velado da barganha. Estamos quase sempre medindo atitudes e avaliando consequências que nos possam ser convenientes e proveitosas. Esperamos dar e receber, plantar e colher, agir e conseguir. Quase nunca fazemos por gratidão, ou esquecemos do bem que fizemos, por devoção. Que o Senhor nos conceda corações doadores.



[1]  2 Timóteo 3:17

domingo, 3 de janeiro de 2016

Passos tão largos quanto a porta


Por Jânsen Leiros Jr.


"22 Assim percorria Jesus as cidades e as aldeias, ensinando, e caminhando para Jerusalém. 23 E alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que se salvam? Ao que ele lhes respondeu: 24 Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão. 25 Quando o dono da casa se tiver levantado e cerrado a porta, e vós começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos; e ele vos responder: Não sei donde vós sois; 26 então começareis a dizer: Comemos e bebemos na tua presença, e tu ensinaste nas nossas ruas; 27 e ele vos responderá: Não sei donde sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade. 28 Ali haverá choro e ranger de dentes quando virdes Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora. 29 Muitos virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e reclinar-se-ão à mesa no reino de Deus. 30 Pois há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos.  

31 Naquela mesma hora chegaram alguns fariseus que lhe disseram: Sai, e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te. 32 Respondeu-lhes Jesus: Ide e dizei a essa raposa: Eis que vou expulsando demônios e fazendo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia serei consumado. 33 Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã, e no dia seguinte; porque não convém que morra um profeta fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que a ti são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta a sua ninhada debaixo das asas, e não quiseste! 35 Eis aí, abandonada vos é a vossa casa. E eu vos digo que não me vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito aquele que vem em nome do Senhor."
Lucas 13:22-35 - JFA

Senhor, são poucos os que se salvam? A resposta de Jesus a essa pergunta normalmente suscita controvérsia, pois há quem pense que Jesus implicitamente diz "sim", mas há também os que consideram que não tendo efetivamente dito "sim", ele implicitamente diz "não". Já eu entendo que a resposta de Jesus não diz nem uma coisa nem outra, pois me parece claro que tal quantidade, se poucos ou muitos pouco importa, pois não será esse número de salvos o objetivo principal do reino. Afinal, o desejo do Senhor é mesmo que todos se salvem[1]. Como imaginar então que sua resposta se pretenda a dizer qual a quantidade comparativa de salvos e não salvos? Antes o seu alerta é para que todos se salvem.

A resposta que o Senhor dá a essa pergunta, não pode ser retirada de seu contexto precedente. Ao comparar o reino de Deus ao grão de mostarda, ele o apresenta como algo aparentemente desprezível, mas que adiante crescerá e servirá de morada e descanso para as aves do céu. Também o compara ao fermento que misturado e escondido em farinha, é capaz de fazer crescer toda a massa. Ou seja, por mais desprezível ou invisível que possa parecer, o reino de Deus crescerá e será incontável, como cita João no livro de Apocalipse[2]. Não serão as atitudes desesperadas dos fariseus e oficiais das sinagogas, que impedirão seu crescimento.

Ora, ao responder que é preciso empenhar-se por entrar pela porta estreita, Jesus não está dizendo que poucos serão salvos, mas que o caminho mais fácil é o largo, que muitos preferem convenientemente porque atende aos interesses imediatos e casuístas. Mas quando o tempo aceitável terminar, quando a porta for fechada, esses mesmos que hoje desprezam o grão de mostarda, que se fazem cegos ao fermento que se mistura à massa, sim esses mesmos quererão entrar pelo mesmo caminho que rejeitaram, mas não poderão. A conveniência de hoje lhes promoverá a perdição de amanhã.

O que me parece mais relevante nesse texto, contudo, é a indicação de que muitos próximos e pretensos participantes desse reino, serão lançados fora sem qualquer mesura, sendo, essa sim, uma questão relevante. Sim, porque não obstante ser grande a multidão que acompanhava Jesus, e que acorria para onde ele estivesse, ele sabia que não era motivada exatamente pelos sinais que anunciavam quem ele era, mas pelo pão que lhes saciava as necessidades fisiológicas[3]. Ou seja, ele ainda estava entre nós e já era, para muitos, apenas uma fonte de realização de suas necessidades e interesses pessoais, por mais nobres que fossem tais interesses. São muitos os que aparentemente recebem Jesus, mas não passam de interessados naquilo em que ele pode ser útil. O recebem na aparência de seus ritos, mas o rejeitam na verdade de seus atos.

E é exatamente disso que Jesus fala a seguir, quando lamenta sobre a Jerusalém que mata os profetas. Porque grande é a rejeição àqueles que declaram a palavra de Deus, e que confrontam a verdade dos corações fingidos. Nunca houve nem pode haver qualquer convívio entre a luz e as trevas. É próprio das trevas pretenderem sempre fugir, impedir, ou mesmo apagar a luz, para que suas obras não sejam manifestas[4]. Ainda que o desejo do Senhor sempre tenha sido o de proteger seu povo de suas próprias vontades e conveniências, assim como a galinha protege seus filhotes, seus interesses pessoais sempre lhes fizeram rejeitar a mão estendida de Deus.

Por fim Jesus prediz que sua próxima visita a Jerusalém, será aquela em que entrará aclamado, antecipando-se tal aclamação ao seu próprio sacrifício; o Cordeiro de Deus. O que mais uma vez confrontará a realidade do povo judeu; o que eles falam com a boca, não se traduz na prática.

Não é difícil em nossa caminhada no reino de Deus, nos depararmos com tempo e esforço gasto naquilo que não é relevante. Quantidade nunca foi o interesse de Deus, mas sim qualidade, já que os verdadeiros adoradores o adoram em espírito e em verdade. Que a verdade dos nossos corações nos mantenham no caminho da porta estreita, e que jamais tenhamos que ouvir "nunca vos conheci".




[1]  1 Timóteo 2:4
[2]  Apocalipse 7:9
[3]  João 6:26
[4]  João 3:19-21; Efésio 5:13

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

De quem mais se confia mais se espera


Por Jânsen Leiros Jr.


"35 Estejam cingidos os vossos lombos e acesas as vossas candeias; 36 e sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, quando houver de voltar das bodas, para que, quando vier e bater, logo possam abrir-lhe. 37 Bem-aventurados aqueles servos, aos quais o senhor, quando vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará reclinar-se à mesa e, chegando-se, os servirá. 38 Quer venha na segunda vigília, quer na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.  

39 Sabei, porém, isto: se o dono da casa soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. 40 Estai vós também apercebidos; porque, numa hora em que não penseis, virá o Filho do homem.  

41 Então Pedro perguntou: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a todos? 42 Respondeu o Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, que o Senhor porá sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração? 43 Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. 44 Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens. 45 Mas, se aquele servo disser em teu coração: O meu senhor tarda em vir; e começar a espancar os criados e as criadas, e a comer, a beber e a embriagar-se, 46 virá o senhor desse servo num dia em que não o espera, e numa hora de que não sabe, e cortá-lo-á pelo meio, e lhe dará a sua parte com os infiéis. 47 O servo que soube a vontade do seu senhor, e não se aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoites; 48 mas o que não a soube, e fez coisas que mereciam castigo, com poucos açoites será castigado. Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá."
Lucas 12:35-48 - JFA

"O Rei está voltando, o Rei está voltando. A trombeta está soando; o meu nome a chamar!... Aleluias Ele vem me buscar!". Essa é parte da letra de um dos hinos mais cantados nos cultos cristãos, nas mais diversas e variadas denominações em todo o Brasil, na década de 70 e 80. Naquela época, lembro-me bem, a agenda de proclamação da igreja tinha como máxima a volta iminente de Jesus. Maranata! Ora vem Senhor Jesus!

Nessa época, o texto acima e seus paralelos tanto em Mateus quanto em Marcos eram lidos muitas vezes, e sustentavam pregações que proclamavam, desde os púlpitos até praças e cultos nos lares, a volta iminente de Jesus. Jesus está voltando, Gritávamos aos quatro cantos. Vivíamos ainda os últimos ares da chamada Guerra Fria, e a possibilidade de uma guerra nuclear que acabasse com o planeta, dava o pano de fundo dessa pregação.

Com o fim da Cortina de Ferro, esse discurso foi considerado, na prática, impopular e pouco convidativo. Beirava ao desagradável, entenderam, pois vivíamos tempos de reconstrução e recuperação de diversas economias internas. E assim, quase que no mesmo tempo, perceberam que o discurso insuflado da teologia da prosperidade se fazia mais atraente, e conseguia arrebatar uma multidão infinitamente maior de fiéis ou interessados, às suas igrejas e ajuntamentos.

Hoje vemos muito pouco dessa mensagem nas literaturas ou agendas de púlpito. Jesus agora está ocupado em atender à multidão de pedidos que lhe devem chegar em profusão, interessados quase sempre em bem estar e satisfação pessoal, ou realização de sonhos e conveniências individuais. O Rei até pode voltar, mas primeiro Ele tem muita coisa que fazer para me agradar. Lógico que essa frase jamais é proferida por alguém; mas ela determina a atitude de um sem número de pessoas espalhadas por todo o mundo evangélico.

A verdade é que a lógica se inverteu, e em vez de sermos servos vigilantes, ávidos e aptos ao serviço do reino de Deus, colocamos Jesus a nosso serviço, providenciando tudo o que queremos e pretendemos ter. Aquele a quem deveríamos servir, foi colocado por nosso hedonismo desenfreado e já não tão camuflado, como nosso fiel e sobrenatural serviçal.

Bem-aventurados aqueles servos, aos quais o senhor, quando vier, achar vigiando! Vigiar é estar acordado, de prontidão para servir ao senhor que chegará a qualquer momento. É manter-se em serviço de prontidão, preparado e preparando-se para servir ainda mais, pois tudo e todos nos são confiados. Não podemos dormir o sono de quem se perde em sonhos e devaneios de uma vida fugaz e sem propósito. O sentido da vida não está em nos realizarmos, mas em realizarmos a vontade de nosso Pai celestial. Ou não somos peregrinos em terra estranha?

Daquele a quem muito é dado, muito se lhe requererá; e a quem muito é confiado, mais ainda se lhe pedirá. A pregação do evangelho nos foi confiada. A vontade de Deus de que sejamos suas testemunhas da graça e da salvação em Cristo, desde sempre nos é conhecida. Por isso a responsabilidade desse serviço nos foi requerida. Estamos vigiando prontos para o serviço, ou nos gastamos diariamente naquilo que  não pode servir a Deus?


Vivemos mergulhados numa preocupação medíocre com a própria vida. Pedimos bênçãos o tempo todo, mas pouco nos disponibilizamos a ser benção na vida de alguém. Vivemos evangelhos de resultados, onde a "fé" e a "dedicação" se medem por conquistas materiais. Eis que cedo venho. Quem tiver ouvidos para ver que fale.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Acúmulos e simpatias; garantias?


Por Jânsen Leiros Jr.


"13 Disse-lhe alguém dentre a multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparte comigo a herança. 14 Mas ele lhe respondeu: Homem, quem me constituiu a mim juiz ou repartidor entre vós? 15 E disse ao povo: Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui. 16 Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; 17 e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher os meus frutos. 18 Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; 19 e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. 20 Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? 21 Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus."
Lucas 12:13-21 - JFA

Final do ano chegando! E como de costume nos deparamos com pessoas que se ocupam em planejar seus ritos de virada de ano, imaginando atrair coisas boas e positivas para suas vidas e para a vida de seus familiares. São pequenos gestos e manias, a princípio inofensivos, que na verdade traduzem nossa constante inclinação por garantias. Usar roupas de uma ou outra cor, mergulhar no mar, comer determinadas comidas, fazer gestos ou falar umas e outras palavras... Tudo com o tempero das simpatias de fim de ano.Um jogo de lógica retributiva, onde a força a que ou a quem se pretende agradar, recompensará com algo bom e relevante. Eu faço isso, logo garanto aquilo. "Não custa nada tentar. Vai que dá certo!" Ou, "pelo menos eu fiz a minha parte".

Nos versículos seis e sete desse mesmo capítulo, Jesus falou de não temermos circunstância desfavorável, porque Deus, que cuida de passarinhos tão baratos, muito mais cuidará de nós. Porém a soberba humana natural é buscar segurança no ter e no fazer. Ter recursos materiais e com eles a sensação de controle, ou fazer alguma coisa por si mesmo, que garanta ou se pretenda a garantir que o que se quer será. São nossas tão sonhadas garantias, que se sustentam prioritariamente naquilo que é tangível, naquilo que é palpável. Esperar importa em incerteza e isso é sinal de fraqueza. Afinal, quem sabe faz a hora não espera acontecer.

Foi requerendo esse tipo de garantia, que o filho desfavorecido de uma determinada partilha, pediu a interveniência de Jesus. O texto não registra as razões que o levaram a ter sido injustiçado, ou ter a sensação de não haver sido favorecido justamente na partilha. Mas de qualquer forma, ao sentir-se prejudicado, ele pediu que Jesus interviesse, trazendo para aquela circunstância, a justiça a que entendia ter direito. Jesus porém não só se eximiu de tal responsabilidade, como reforçou por parábola, a ideia de que recursos materiais em nada podem garantir a justiça, ou o cuidado de Deus. Ninguém pode produzir a própria justiça.

Na parábola, o homem rico e avarento, diante da prosperidade de seus campo, a despeito de já ter produzido o bastante para seu sustento e para o bom lucro de seu empreendimento, não pensou em estender ajuda a quem quer que fosse. Antes ele pensou apenas em si mesmo e na garantia de seu próprio futuro; na segurança dos dias vindouros. Ele decidiu ampliar sua capacidade de armazenamento, para que tais recursos lhe permitissem descansar de suas preocupações com o amanhã.

Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Essa é toda a insensatez das garantias materiais e da segurança que advêm dos recursos estocados; nada pode garantir a vida, ou a possibilidade de aproveitar o que se acumulou. Insensato, esta noite te pedirão a tua alma. Em outra tradução diz Louco!... Ora, se o acumulo de bens e a segurança nas riquezas é vã mesmo para quem a tem de verdade, quanto mais fugaz é a sensação de se garantir em pequenas posses ou simpatias, para aqueles que pouco ou nada têm. Mas são muitos os que, mesmo vivendo remediadamente, acreditam que suas seguranças e garantias, podem estar condicionadas ao que lhes seja palpavelmente conquistado, ou presumivelmente encaminhado.

E o que tens preparado, para quem será? A avareza e a ansiedade de acumular o bastante para um futuro que não pode ser garantido pela posse de qualquer riqueza, fez com que aquele homem não se permitisse ser generoso, e ajudasse alguém com o que lhe sobejava. Sua insensatez culminou na distribuição, não só do que lhe sobraria, mas de tudo o que já havia guardado. Toda sua riqueza se perdeu, quando perdeu a própria vida.

Quando no deserto, o povo de Israel, liberto da escravidão do Egito, precisou aprender a depender do sustento de Deus dia a dia, alimentando-se do maná que descia do céu toda manhã. E não podia nem mesmo guarda-lo de um dia para o outro pois estragava. Era preciso confiar que no dia seguinte, nova porção do cuidado de Deus se encarregaria de suas necessidades. A única garantia que tinham, era o cuidado, a providência e a fidelidade de Deus.

Garantias materiais não combinam com fé. Ser generoso é abençoar o próximo com a prosperidade do que Deus nos concede. Quão melhor é dizer comam, bebam, aproveitem... comigo, tudo isso que Deus me proporcionou. Não são as cores certas, nem as palavras exatas, e muito menos a quantidade de mergulhos que moverão a mão de Deus. Mas sim o seu amor e o seu cuidado, no que devemos confiar e descansar.

Vivemos buscando recompensas e prosperidade que garantam nossa segurança e confiança no futuro, quando na verdade esse futuro precisa, por fé, ser garantido e sustentado por Deus. Que nossa fé se exercite na dependência de Deus, e que a eventual prosperidade ou a falta dela não nos torne insensatos e loucos, buscando em mandingas ou posses, as garantias de que haverão de nos dar aquilo que pedimos ou pensamos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Contra pedaladas fiscais, pedaladas dominicais



Por Jânsen Leiros Jr.


Cerca de 1 milhão de pessoas confirmaram presença em uma manifestação contra a presidente Dilma Rousseff, no domingo (15). Organizada principalmente por três grupos, Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados ON LINE, a passeata está marcada para às 14h, em frente do Masp, na Avenida Paulista. Entre as reivindicações, está o pedido de impeachment da presidente.
O protesto remete, assim, ao movimento Caras-pintadas, de 1992, que foi às ruas de todo o país exigindo a saída do então presidente Fernando Collor de Melo, o primeiro e único a sofrer impeachment. “Existem algumas semelhanças entre os atos”, afirma Hilton Fernandes, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Em sua maioria, apresentam-se como apartidários e estão incomodados com a situação do país.”
Há, entretanto, uma diferença bastante significativa. "Não há nenhuma investigação contra a presidente Dilma, diferentemente de Collor, cujo envolvimento com um esquema de corrupção estava comprovado”, explica Fernandes.
Fonte: http://vejasp.abril.com.br/materia/manifestacoes-impeachment-caras-pintada-dilma-collor/

Que estamos vivendo circunstâncias inusitadas em nosso país, me parece que é um sentimento comum à grande maioria da população. O que eu não tenho percebido nessa mesma maioria, contudo, é a disposição de discutir com coragem o que está efetivamente se passando diante de nossos olhos, muitas vezes distraídos com cortinas de fumaça, ora estendida pela mídia comprometida, ora pelos políticos, mestres na arte de dissimular o que realmente importa, trazendo a discussão para patamares menores e de nenhuma ou quase nenhuma importância.

Desde o anúncio de que o presidente da câmara, Deputado Federal Eduardo Cunha havia acatado o processo de impeachment contra a Presidente Dilma Rousseff, uma verdadeira batalha pelo apoio popular instaurou-se nos corredores da política, da mídia e nas próprias ruas, tentando, cada lado, gerar indignação e revolta contra as manobras e as argumentações defendidas pelo movimento opositor. Situação e oposição lutam pela alma insegura e atônita dos populares, que parecem não saber exatamente para que lado olhar ou a quem escutar. É, mas pelo visto, só parece.

De certa forma, o que se pode chamar de fracasso das manifestações marcadas para esse último domingo, treze de dezembro, traduz o sentimento da população brasileira com relação a esse processo. Em vez de manifestações de massa com adesão de diversos seguimentos da sociedade, o que se viu nesse domingo de sol forte e dia lindo na maioria do território nacional, foram famílias passeando e gente bonita aproveitando para pedalar em suas bicicletas pelas vias interditadas.

E por que isso? Porque não era dessa forma que a população queria que o processo fosse instaurado. Ou pelo menos não por essas razões e não com essas conduções. Sim, porque que outra explicação poderia traduzir a inapetência das ruas, logo quando acontece o que mais a população a uma só voz vinha manifestando desejo?

Dissimuladores de ambos os lados se apresaram a, com o cinismo que lhes é peculiar, distorcerem a realidade do recado da população. Não é verdade que a falta de adesão às manifestações demonstraram apoio da população à presidente Dilma e ao seu governo. Isso é querer fingir e dissimular que não há uma grossa e ameaçadora corda no pescoço. Mas por outro lado, também não é verdade que a população apenas está ensaiando para manifestações futuras de maior relevância, ou que o lindo dia de sol esvaziou as passeatas. Dissimulação de ambos os lados, com vistas a nublar os olhos atentos ou interessados do povo.

Sim, o governo Dilma tem astronômica rejeição por parte da população, e isso graças a incompetência demonstrada na condução da economia e de gestão da máquina pública, claramente exposta e flagrada aos borbotões. Nem vale a pena aqui repassar tais questões. E não foi por apoia-la ou não concordar com seu impeachment que a população não foi para a rua. O que a população não conseguiu vislumbrar, foi legitimidade nesse processo, e isso sim, lhes incomoda e não lhes estimula ao engajamento por uma causa que, ainda que lhe interesse, não traduz na forma, sua indignação.

O processo carece de fundamento moral. Pedaladas fiscais, no país do jeitinho, não soa como crime hediondo, mas como manobra de quem quer achar pelo em ovo para atingir  um objetivo que, pela manobra descarada, acaba por cheirar a interesse incerto e suspeito. E sabendo que por suspeito e inconsistente, tal processo correrá muito mais por conta e na onda dos ajustes e conchavos políticos, a população retira sua chancela, e se coloca como mera expectadora de um processo que, se não se caracterizar por uma grande manipulação jurídica para se efetivar um impeachment, será mais uma festa política a terminar em pizza.

Há legitimidade em um processo de impeachment? Sim. A constituição prevê tal instrumento para defender o país de aproveitadores e usurpadores da coisa pública. Utilizá-lo é golpe, como defende o discurso petista? De modo algum, pois o próprio PT aderiu e patrocinou o Fora Collor como guerreiro de primeira hora. O que não é legítimo, é utilizar tal processo para coagir o governo petista a defender o presidente da Câmara dos Deputados de um processo de cassação pelo Conselho de Ética da Câmara. Porque não se enganem. Nenhum processo seria instaurado caso esse senhor não estivesse em maus lençóis. Conveniência e casuísmo. A população está cansada de ser manipulada por isso.


Portanto, aos oportunistas de ambos os lados fica o recado. Não acreditem que o povo apoia o governo Dilma. Seu índice de rejeição e as conversas de corredor, por todos os corredores, demonstram que a população está cansada de sua incompetência e falta de gestão. Mas também não pensem que levantando bandeiras piratas, vão provocar adesão das massas como no Fora Collor. Ali tínhamos um presidente da república a expulsar. Mas o que temos hoje é um presidente da câmara tentando se safar. Não vai colar. 
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