segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

=> Olhando nuvens e o ônibus lotado




“Quem fica apenas olhando o vento jamais plantará e quem para observando a passagem das nuvens nada colherá.”
                      Eclesiaste 11:4 - BJK


“A oportunidade passou como ônibus lotado e não fizemos sinal para ele parar.”
                      JLJr

O oportunismo é um conceito incrivelmente controverso em nossa sociedade desde sempre, ou pelo menos desde que me entendo por gente; que é quase igual a “desde sempre”. Ser um oportunista tanto pode significar uma importante e destacável característica em um indivíduo, como pode ser a constatação decepcionante de que o individuo em questão utilizou-se indevidamente de uma oportunidade que não lhe cabia.

A imprensa em sua quase totalidade tem apresentado diversos oportunistas que, diante da possibilidade de enriquecer levianamente, não mediram esforços para alcançarem seus interesses particulares, a despeito dos interesses comuns da população; legítima proprietária do dinheiro público. Na outra ponta, há oportunistas aclamados, como é o caso dos atacantes artilheiros do brasileirão, que com a bela mania de se aproveitarem das oportunidades, nos empolgam com a beleza de suas jogadas.

O que nos interessa hoje, porém, não são os oportunistas, mas sim a oportunidade. Esse instante mágico, que une condição e pretensão, surge como uma janela aberta na dimensão de nosso cotidiano, de duração variada, e que se perpetua na memória pelas conseqüências, tenha sido a oportunidade aproveitada ou perdida. No imaginário coletivo e aceito pelo senso comum, ou a agarramos com “unhas e dentes”, ou ela passa jamais retornando.

Esse conceito, no entanto, faz-nos pensar que a oportunidade está ligada ao acaso, ou seja, circunstâncias convergem em favor de uma determinada condição, que se apresenta para nós como sorte, e que deve ser aproveitada a qualquer custo.

Diferente do senso comum, no entanto, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, a oportunidade é apresentada como condição oportuna, adequada e propícia para um determinado fim. Jamais como uma condição formada aleatoriamente, mas sim providencialmente conduzida por Deus e disponibilizada ao individuo para realização e cumprimento de sua vontade.

Ainda que a oportunidade possa ser perdida pela rejeição ou opção do ser humano, uma vez que esse sempre será livre para rejeitar a mão estendida de Senhor, nos ocupemos por enquanto das oportunidades perdidas pela falta de fé, confiança e esperança em Deus. Falamos daquelas oportunidades perdidas pelo julgamento de que as condições não são favoráveis, que ainda não é o tempo ideal, ou que esperando um pouco mais antes de a realizarmos, as vantagens serão ainda maiores das que se apresentam possíveis agora. Na verdade desculpas que camuflam falta de confiança num discurso pretensamente racional e equilibrado.

 Quem fica apenas olhando o vento jamais plantará e quem para observando a passagem das nuvens nada colherá. Salomão alerta para essa armadilha. Na esperança de se apresentem condições sempre mais adequadas, ou um atalho que encurte a jornada ou que torne o trabalho mais leve, ficamos de cara para o céu, olhando nuvens passageiras ao sabor do vento. Condições sempre estão em mutação. O mundo não é estático. É preciso dar o primeiro passo para realização da oportunidade.

Sim, porque se é certo que as condições propícias são concedidas por Deus, também é certo que Ele mesmo espera de nós uma atitude de fé, de iniciarmos a realização com nossas forças e disponibilização de todo o nosso empenho e nossa realidade em favor do fim para o qual somos inspirados.


“8 Ficarei, porém, em Éfeso até ao Pentecostes; 9 porque uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu; e há muitos adversários.”
                      1 Coríntios 16:8-9 - RA

O apóstolo Paulo informava a seus leitores que se manteria em Éfeso, onde uma oportunidade lhe havia sido concedida. Não era uma oportunidade para se dar bem. Era uma promessa de grande desgaste, de um trabalho sofrido, de condições propicias para a pregação, ainda que desfavoráveis para a vida. Ou não sabemos todos que até risco de morte Paulo corria com tal decisão? Mas ele não claudicou diante da oportunidade dada por Deus. A obra era do Senhor, mas a execução dele, Paulo. Era por confiança e fé que se arriscava e dedicava ao cumprimento de sua vontade pela oportunidade.


“35 Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa. 36 O ceifeiro recebe desde já a recompensa e entesoura o seu fruto para a vida eterna; e, dessarte, se alegram tanto o semeador como o ceifeiro. 37 Pois, no caso, é verdadeiro o ditado: Um é o semeador, e outro é o ceifeiro. 38 Eu vos enviei para ceifar o que não semeastes; outros trabalharam, e vós entrastes no seu trabalho.”
                      João 4:35-38 - RA

Fazendo comparação com o tempo para a colheita, Jesus confronta seus discípulos. Ainda que as circunstâncias apontem para outras atitudes, estratégias e prazos, a realidade da oportunidade está diante dos seus olhos. Não importa se o tempo adequado ainda não tenha chegado, a oportunidade está aqui e é agora. O campo está pronto para a colheita, a despeito das previsões. Na verdade, conclui Jesus em Mateus 9:37 e 38, o que falta são ceifeiros dispostos a iniciarem já a colheita; há poucos. Precisamos de mais ceifeiros. Outra vez a realização cabe a nós.

Portanto precisamos descer do muro. Começar a caminhada. Entrar na seara e colher no campo. Precisamos parar de esperar o ônibus mais vazio, o taxi mais espaçoso, o passe magistral... O melhor vento. Agir na direção da realização da vontade de Deus dependerá de nossa confiança e fé, discernindo realidade e circunstância. A oportunidade? Está diante de nossos olhos.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

=> Por que o irmão não faz como eu?




“Deus não criou robôs, não nos fabricou em série. Cada um de nós é um ser único que revela em si mesmo uma individualidade plena, ainda que plural, porque capaz de se torna um com o outro e com muitos, sem deixar de ser único.”
                      JLjr


"4 Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. 5 E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. 6 E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. 7 A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso. 8 Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; 9 a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; 10 a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. 11 Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente."
                      1 Coríntios 12:4-11 – RA


“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,”
                      Efésios 4:11 - RA

A multiplicidade de manifestações dos dons concedidos pelo Espírito de Deus, por diversas vezes esteve na pauta de defesa de que cada um possui uma forma única e particular, no serviço do Reino de Deus, para edificação do corpo de Cristo. O que pouca gente ressalta, contudo, é que o coração humano, por vaidade ou ciúme, ou pelas duas coisas, leva determinadas pessoas a desqualificarem ou mesmo menosprezarem a importância deste ou daquele dom, na tentativa infantil de realçar o seu próprio dom, buscando com isso notoriedade e distinção.

Esse tipo de atitude, no entanto, não é nova. Muito pelo contrário. O apóstolo Paulo enfrentou esse problema na igreja de Corinto, e por essa razão ele faz a defesa de que o mesmo Espírito é que concede os diferentes dons, com a mesma importância e valor para o amadurecimento da igreja. Já naquela época e pouquíssimo tempo depois da ressurreição de Jesus, membros da igreja já se jactavam por terem algum dom que os valorizava, a ponto de lhes darem presumida importância superior e destaque no seio da igreja.

Pelo senso comum, esse comportamento é reprovado entre os grupos eclesiásticos. Na prática, porém, a situação se desdobra diferente da teoria e do aceitável. Porque ainda que diferentes dons sejam aceitos como utilidades diversificadas para a capacitação das possibilidades da igreja, o que se exige dos que participam de algumas congregações, é que seus comportamentos, seus impulsos e traços de personalidade e até a forma de adoração, sejam iguais ou se manifestem iguais aos demais. Por quê o irmão não faz como eu?

Esse maniqueísmo é sutil, mas é forte e cruel com quem se atreve a não embarcar no modelo adotado pela maioria, que é entendido como o único modelo aceitável e aferidor de piedade e firmeza espiritual. Esse dualismo que estabelece o pensamento implícito do quem não está comigo está contra mim, gera pensamento segregador, que não aceita no outro, reações, posicionamentos ou preferências diferentes, divergentes e particulares.

O que na prática não se aceita, é que as pessoas têm histórias diferentes, costumes diferentes, predileções outras, não necessariamente idênticas ou mesmo compatíveis entre si. Quem cruza os braços não é menos crente que quem levanta as mãos ao cantar. Quem solta um aleluia durante as orações ou durante a adoração, não é mais especial do que ninguém. E não; ninguém é obrigado a fazer igual na hora em que alguém diz que isso deve ou não deve ser feito. Unidade na fé não é necessariamente uma manifestação uniforme e padronizada de espiritualidade. Mas a cumplicidade e a concordância naquilo em que cremos; Cristo em vós, a esperança da glória.

Ora, se as habilidades com que somos dotados atendem a uma variedade importante no cumprimento dos propósitos de Deus, que dirão nossas personalidades e nossas histórias, que nos fazem diferentes e divergentes, num mosaico de capacitações e atitudes inerentes a qualquer grupo humano. Por isso Paulo insistia; “como resultado disso, já não existem mais judeus e não-judeus, circuncidados e não-circuncidados, não-civilizados, selvagens, escravos ou pessoas livres, mas Cristo é tudo e está em todos” (Colossenses 3:11 – NTLH). Na variedade de personalidades, etnias, condição social e comportamento, opera a multiplicidade de possibilidades de auxílio mútuo e amparo.

É necessário, portanto, aceitar que entre nós há indivíduos que respondem diferentemente aos estímulos e provocações do Espírito de Deus, que atua individualmente para que não haja absorção ou programação, mas uma resistência à uniformidade. Nossos ajuntamentos e celebrações de modo algum podem se assemelhar a exercícios de pelotões de robôs, obedientes a comandos mecânicos. Antes, pelo ensinamento de que misericórdia quero e não sacrifícios, sejamos espontâneos, voluntários e amorosos, agindo com singeleza de coração. Usando de verdade e autenticidade diante do Pai.

Que o Senhor nos sustente por sua graça, mantendo-nos na pluralidade dos dons e das atitudes, para que a riqueza de seu poder e propósitos continue a nos capacitar a atingir diferentes culturas e regiões, para a sua glória.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

* Arrependei-vos! Porque pegamos o caminho errado




“Sempre ouço pessoas dizerem que não se arrependem de nada do que fazem, querendo demonstrar, talvez, que não têm vergonha de seus erros ou que sabem assumir suas conseqüências. De certa forma até seria louvável, se isso não embutisse uma profunda relutância em admitir que, em algum momento do caminho, tomaram a direção errada, e que terão de retornar até lá e começar tudo outra vez, se é que pretendem chegar ao destino originalmente traçado.”
JLJr

Antes de iniciarmos a audição do Sermão do Monte, será muito importante identificarmos algumas marcações importantes do cenário em que ele se desenvolve. Não me refiro ao cenário físico, porque podemos encontrá-lo em quaisquer manuais bíblicos ou em livros ilustrados onde fotos retratam o possível local onde os discípulos ouviram o sermão. Refiro-me ao cenário religioso e emocional em que estavam inseridos os ouvintes de Jesus.

Israel amargava total distanciamento do objetivo que Deus havia traçado para o seu povo. A idéia de um povo santo, separado para lhe pertencer e fiel à esta identidade, criado para que, tanto o seu pensamento quanto o seu comportamento refletissem a glória de Deus e revelasse sua imagem, havia se perdido ao longo de muitos séculos.

Israel não quis ser esse povo. Declinou da missão de ser um povo modelo da sujeição e do domínio de Deus. Na verdade pediu e exigiu ser igual às outras nações, assemelhando-se a elas na constituição política, nos hábitos sociais e até na prática religiosa. Não havia diferença relevante mais sim um modo de vida muito comum a todas as nações que o cercavam.

Arrependei-vos! Dizia Jesus, porque é chegado o Reino de Deus. Arrependei-vos, porque não foi para isso que vocês foram constituídos povo de Deus, nação santa. Não foi para viver essa vida de puro ritualismo, formalidades religiosas, ativismo pretensiosamente piedoso que o Senhor os chamou desde Ur. Arrependei-vos! Abandonem esse modelo superficial, conveniente e ritualista. Assumam uma vida mais relevante, efetiva e plena do domínio e do reinado de Deus em suas vidas.

Ao longo de todo o sermão, Jesus confrontará diante de seus discípulos o vigente e a novidade, o certo e o perfeito, o comum e o revolucionário... O legal e o ideal. Ele apresenta analogias extremas, porém possíveis, fazendo-se exemplo personificado de sua proposta de vida santa, de comunhão com Deus, e de surpreendente relevância no contraste com tudo o que a sociedade e a religiosidade contemporâneas ofereciam. “É chegado o Reino de Deus”.

Então Jesus se afastou para o monte e se distanciou das multidões. Preferiu ficar a sós, mas seus discípulos se aproximaram. Sabendo que provavelmente teria algo a lhes dizer, eles sentaram ainda mais perto, guardando silêncio e esperando que ele o quebrasse. Então o Senhor, abrindo a boca, começou a ensinar-lhes dizendo...

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

=> Desconhecidos íntimos - o milagre do Espírito em nós





“São milhares que jamais vimos. Multidões a quem nunca nos dirigimos. E somos tomados de cumplicidade e confiança, pela unidade da fé. É uma troca espontânea e intensa, em nada imposta por regras ou artifícios. Um prazer que nos embala e arrebata, porque n’Ele somos um; desconhecidos íntimos.”
                      JLjr


“42 E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. 43 Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. 44 Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. 45 Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. 46 Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, 47 louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos.”
                      Atos 2:42-47 - RA

Em tempos em que as relações se pautam por conveniências e interesses os mais diversos e suspeitos, a comunhão da igreja e o convívio espontâneo e prazeroso pela unidade da fé, soa provocante aos corações e mentes, anunciando com contundência e poder, o cuidado e a salvação que nos foi dada em Cristo, nosso Senhor.

Adolescente, ávido por viver tudo ao mesmo tempo e intensamente, e sendo vizinho da Igreja Batista de Cachambi por anos, lembro que me causava alguma estranheza ver tanta gente perder o domingo inteiro na igreja, enquanto eu e meus colegas nos divertíamos jogando bola na mesma rua. Digo alguma, porque no fundo, embora criticasse com pilhérias os crentes que ousavam passar pelo meio de nosso campo de futebol, havia em mim uma inquietante pergunta sem resposta; o que os motivava a tanta dedicação?

Não demorou muito para que, durante a semana da Escola Bíblica de Férias – EBF, eu passasse a conhecer de dentro, o que impelia aquela gente a um convívio tão continuado e intenso; o prazer. Sim, porque afirmação alguma, ou qualquer que seja o mandamento, nada supera o apelo do prazer legítimo que a comunhão gera em nossos corações. E como gosto de afirmar, sensações são mais fortes que argumentos. Por isso “Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes.” (Salmos 133:1 e 2 - RC). A comunhão é um perfume que agrada os que nos rodeiam e nos reveste de encanto.

É claro que não falo de uma mera reunião ou ajuntamento. Com certeza já participamos de grupos em que a proximidade não passava de conveniente formalidade ou atitude protocolar. Nos mais variados ambientes, e não excluo aqui os religiosos, percebemos olhares ocos, sentimos abraços frios, e amargamos apertos de mãos sem vida. Por muito tempo alegria foi sinônimo de pouco siso. Sorrisos não combinavam com piedade, e efusivas demonstrações de afetos entre os irmãos eram vistas com estranheza e suspeição. O cuidado com o outro era responsabilidade de pastores e líderes.

Que fique ainda mais claro, que também não falo de demonstrações frívolas e inconsistentes de proximidade, com palavras pré-moldadas ou frases colocadas, todas para criarem uma falsa aparência de afinidade e emoção. De nada adiantam lábios que se adulam mutuamente, com corações distantes e interesses conflitantes ou divergentes. Intimidade se constrói sobre propósitos confluentes e o prazer sincero de estarmos junto do outro, com o outro, e pelo outro. O milagre de sermos um, sendo muitos; o poder do Espírito que habita em nós.

Ora, o que é a comunhão para nós, senão o exercício legítimo da unidade da fé? E esta mesma fé não é o dom de Deus derramado em nós por sua bondade e graça, mediante o sacrifício de Jesus? Logo podemos afirmar sem qualquer medo ou insegurança, que a vivência permanente e o convívio dos santos, em amor, são uma das mais contundentes e profícuas pregações que a Igreja pode fazer ao mundo sobre tão grande salvação. A unidade da fé e a comunhão em amor são proféticas ao mundo.

Portanto não temos e não devemos nos envergonhar de nada que vivemos ou produzimos, irmanados que estamos em Deus. Vivendo em comunhão e amor, louvando e adorando o Autor da vida, pregamos a salvação. Porque se o amamos é porque Ele nos amou primeiro. E se somos um, é porque ele nos salvou. Louvado seja o nosso salvador. Amém.

sábado, 8 de novembro de 2014

ENEM aí pra ninguém...





“Sempre ouvi dizer que o sucesso está nos detalhes. Se isso é verdade, grande parte do insucesso das políticas públicas está exatamente na distância entre o que se planeja e o que é efetivamente realizado. Ora por falta de vontade e efetividade, ora pelo não engajamento ideológico da equipe que deveria realizar o planejado. O problema às vezes é de essência e de gente”
                      JLjr

Eu me lembro bem, não faz muito tempo, durante a campanha eleitoral para a presidência da república, o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, foi amplamente utilizado como exemplo de gestão e de política publica para a Educação. Um grande feito desse ministério e do governo do PT. Um sucesso que particularmente questiono, não tanto por sua pertinência, mas pelos detalhes logísticos que, desconsiderados, podem interferir para sempre na vida de tantos jovens que sonham com o ingresso em uma faculdade.

Podemos começar com a espetacular definição dos locais de prova. Um processo que, se tem alguma lógica, não atende ao mínimo de coerência na distribuição dos candidatos pelas unidades. Um maciço e desnecessário cruzamento de bairros ainda que próximos, mas que na prática se torna intransponível, dado o trânsito extra de um dia de prova. Na região de Jacarepaguá, aqui no Rio de Janeiro, candidatos residentes na Taquara, Tanque e Curicica, lotados em unidades da Freguesia e vice-versa. Resultado; só na sala em que prestei exame mais da metade não apareceu. Minha filha relatou mesma proporção onde ela fez sua prova. Ah! Sim. Eu fiz o ENEM, então estou falando como quem participou do processo.

Me pareceu que por principio os candidatos foram distribuídos segundo a letra inicial de seus nomes, dentro de uma determinada região geográfica. Um critério que pode até funcionar em cidades pequenas ou em lugares onde o trânsito local não ofereça um engarrafamento tão absurdo num sábado de prova nacional. Numa grande cidade como o Rio, o critério mais simples seria o do CEP do candidato relacionado ao CEP da unidade mais próxima. Assim evitaríamos deslocamentos significativos, como o que realizamos ano passado, quando morando em Colégio, minha filha foi lotada em uma unidade no Engenho Novo, mais de quinze quilômetros de distância, que foram percorridos em duas horas de carro, sempre buscando caminhos alternativos, tamanho o nó no trânsito daquele dia. Imaginei que a experiência do ano passado tivesse servido às autoridades e responsáveis, para que tal circunstância não se repetisse. Doce ilusão.

Depois voltarei na questão logística. Porque uma outra e importante preocupação foi a relação “quantidade de questões x tempo de prova” Tenho a impressão que o iluminado que calculou isso jamais realizou uma prova, ou se o fez, sempre teve o gabarito no colo. Questões longas que requeriam excessivo cuidado na leitura, tanto do enunciado quanto das alternativas, jamais poderiam atender ao coeficiente de três minutos por questão, sem contar que uma grande quantidade das noventa questões demandava cálculo. Tanto é verdade, que na prova da UERJ o quoeficiente é de quatro minutos por questão. Presenciei muitos candidatos apressando suas marcações ou fazendo as últimas quinze questões de qualquer forma, para não correrem o risco de não completarem a prova.

Voltando, alguém aí falou em trânsito? Durante a semana, quem trafega por qualquer região no Rio de Janeiro, e sei que também em outras cidades como São Paulo, esbarra até sem querer num contingente imensurável de agentes de trânsito. São tantos, que lotariam facilmente um Maracanã em dia de decisão. Mas hoje, um dia de evento nacional, quando que uma quantidade enorme de candidatos se desloca pela cidade, não havia qualquer agente da CET-Rio nas ruas auxiliando o escoamento do trânsito. Resultado? Nó na Taquara, nó no Pechincha e na Freguesia, para ficarmos nos bairros em que fui testemunha ocular do fato.

Alguém poderia argumentar que não são problemas assim tão graves e que não dizem respeito diretamente ao ENEM. Concordo e descordo. Porque se é verdade que o exame propriamente dito não deixou de ter sua aplicação realizada, por outro lado a falta de cuidado com pequenos detalhes que acarretam grandes transtornos, demonstra ausência de planejamento e de coordenação do aplicador nacional do exame com as autoridades locais, para garantir que a totalidade dos candidatos inscritos consiga ter o acesso necessário às suas unidades de prova.

Pra piorar a sensação de quem foi impedido de prestar o exame por circunstâncias que estiveram além de suas possibilidades e previsibilidades, a Jornal Nacional em sua edição de hoje, ressalta apenas que alguns “atrasados perdem a prova por se atrasarem”, deixando de prestar um importante serviço, que seria a cobrança desses cuidados por parte dos organizadores. Um desserviço a que já vimos nos acostumando ultimamente.

Por fim, amanhã teremos mais. Domingo sem tanto carro na rua e bem menos candidatos acorrendo aos locais de prova. O ENEM será um sucesso! E com a contabilização do total de inscritos, não dos que conseguiram realizá-lo.
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