segunda-feira, 6 de julho de 2015

Nosso amor resume todo o Amor


Por Jânsen Leiros Jr.

“28 Aproximou-se dele um dos escribas que os ouvira discutir e, percebendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 29 Respondeu Jesus: O primeiro é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. 30 Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças. 31 E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses. 32 Ao que lhe disse o escriba: Muito bem, Mestre; com verdade disseste que ele é um, e fora dele não há outro; 33 e que amá-lo de todo o coração, de todo o entendimento e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios. 34 E Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E ninguém ousava mais interrogá-lo.   "
Marcos 12:28-34 - JFA
Ver também  Mt. 22:34-40

No contexto desse capítulo, Jesus responde a diversas perguntas capciosas que os fariseus e escribas lhe fazem, com o intuito de lhe provocar, pretendendo que caísse em alguma contradição com a lei mosaica, ou mesmo à lei de César, imperador romano e dominador de toda aquela região em que se desenvolve todo o seu ministério.

Ao longo dos quatro evangelhos podemos flagrar as tentativas sempre sorrateiras, de induzir Jesus a um erro qualquer, que lhes justificasse sua prisão ou morte. Jesus vinha chamando a atenção de muitos de seus líderes e também vinha arrastando uma multidão de seguidores. Isso se tornava cada vez mais perigoso aos interesses pessoais ou mesmo coletivos daqueles que se locupletavam da conduta piedosa e devotada do povo judeu. Aproveitadores, que acumulavam grande riquezas manipulando a fé e as carências espirituais daquela gente.

Sem se abalar Jesus se posicionou em todas as questões, sem jamais se acovardar. Além disso, respondeu com equilíbrio e com uma precisão que impressionou até mesmo os seus inquiridores. Ele respondeu a questões de tributo, a questões religiosas e começou o capítulo revelando-lhes a dureza do coração; a rejeição a quem é a pedra de sustentação do edifício de Deus

Após entrarem em conselho para definirem suas estratégias, conforme narra Mateus, os fariseus passaram a responsabilidade de tentar confundir Jesus, àquele que entendiam ser o mais preparado para o "pegar" em alguma afirmação blasfema ou contraditória à lei. A astúcia era, desde sempre, colocar o Mestre em uma "sinuca" de difícil solução.

Antes da tentativa narrada no texto acima, tentam apanhá-lo em desobediência civil, na questões dos tributos. A lei imposta pelo imperador e dominador César exigia o pagamento de impostos. Mas os judeus liderados por seus religiosos proeminentes, discordavam disso, considerando que não haveria de existir qualquer obrigação com o governo de Roma. Então Jesus dá a famosa resposta, em que alguém terá sempre direito àquilo que lhe pertence; a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

Ainda antes, no caso da hipotética história de casamentos seguidos em que a mulher era tomada pelo irmão do morto, seu marido anterior, de quem ela seria mulher? Pretendiam com isso gerar uma celeuma interminável e sem solução. Jesus responde com o impensável para eles; uma descontinuidade da vida como a conhecemos, em seus usos e costumes temporais. Havia ainda implícita nessa questão, a disputa com aqueles que não acreditavam na ressurreição, pois saduceus e fariseus discordavam nesses ponto doutrinário.

Vem então a pergunta sobre qual dos mandamentos seria o mais importante. Imediatamente pensamos que o escriba falava dos Dez Mandamentos, que é a nossa idéia de mandamento. Porém os judeus haviam desdobrados os mandamentos em mais de 600 outros mandamentos variados, chegando a por menores tão ínfimos, que chegavam a "legislar" sobre o dízimo da hortelã[1]. Era portanto natural até, que uma pergunta como essa fosse aceitável em um contexto de extremo preciosismo, ainda que o próprio Jesus considerasse tal extremo cuidado e precisão, como uma incoerência entre o formal e o essencial[2]. Coam o mosquito mas engolem o mosquito.

Jesus então resume todos esses mandamentos em dois. O primeiro diz ser o amor a Deus a principal razão existencial do ser humano, citando a versão desse mandamento do Antigo Testamento[3]. Ele fala de um amor tão pleno e tão profundo, que sua totalidade é requerida; não pode haver qualquer proporção excluída. Todo o coração, toda tua alma, todo o teu entendimento e todas as tuas forças, não aceita parte, qualquer que seja ela. Isso significa que o amor a Deus requer dedicação total dos sentimentos, dos pensamentos, e da vontade, manifestados em uma alma plenamente dedicada e disponível.


O segundo mandamento, que Jesus diz ser tão importante quanto o primeiro, diz respeito ao amor que devemos ter pelo nosso próximo. Mas há uma importante mudança de paradigma aqui. Se antes a totalidade era o critério para amar a Deus, o amor ao próximo deve usar como modelo e inspiração, o amor que temos por nós mesmos. Ou seja, o que desejamos para nós, e a maneira como cuidamos de nós mesmos, deve ser o parâmetro de nosso empenho no cuidado e satisfação do nosso próximo. E isso estabelece um princípio novo, pois em vez de se utilizar da célebre frase não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você, ele diz cuide e satisfaça o próximo como se estivesse fazendo isso a você mesmo. Esse mandamento revela o amor como uma atitude realizadora da bondade, um sentimento que se expressa por ações em favor de, e não apenas com palavras inertes.

Na narrativa de Mateus, Jesus diz que desses dois mandamentos, depende toda a Lei e os Profetas[4], numa clara menção ao que hoje chamamos de Antigo Testamento. Isso porque o amor é a máxima tradução de tudo o que se registrou na Bíblia. Deus é amor, e por esse amor realizou, realiza e realizará tudo o mais. Por amor Jesus se entregou por nós, ocupando o lugar que seria nosso. Pelo Amor que em nós produz o amor, vivemos em comunhão cuidando uns dos outros, em compaixão e graça, levando as cargas uns dos outros[5].

O escriba inquiridor de Jesus se demonstrou impressionado com a resposta dada pelo Mestre. Tanto que ele mesmo a completa fazendo menção a outro texto em Oséias[6]. Mais ainda. Ele pareceu balançado por Jesus. O seu coração percebeu algo diferente. E isso ficou tão claro, tão notório, que o próprio Jesus diz perceber que ele não estava longe do Reino de Deus.

Portanto, Sempre que passamos a chamar atenção por nosso testemunho, "armadilhas" nos serão colocadas à frente, no intuito de nos provocar e nos induzir ao erro. Perguntas capciosas, propostas indecentes, ocasiões suspeitas. É com equilíbrio e retidão, e um bom conhecimento da Palavra, que poderemos dar as respostas eloqüentes aos nossos inquiridores, dando ainda mais excelente testemunho da salvação e da graça de Deus.

O amor será sempre a via de conduta perfeita para tudo e em todas as circunstâncias da vida. Porque o amor é a essência de tudo em Deus, porque Deus é amor[7]. Aquele que está verdadeiramente em Deus, está profundamente mergulhado em amor. E quem ama age sempre em busca daquilo que agrade o amado. Quem ama cuida de agradar aquele a quem ama. Quem ama a Deus, busca a santidade e aborrece o pecado. Como diz João, quem ama a Deus não vive pecando[8].

Amar ao próximo como a si mesmo, é um paradigma perfeito. Porque ninguém maltrata a si mesmo; antes cuida de si com atenção e interesse, em todos os seguimentos e possibilidades da vida. Por nos amarmos a nós mesmos, sempre buscamos o melhor para nós, procurando satisfazer nossas necessidade e desejos. Amar o próximo como a nós mesmos, fará com que tudo o que buscamos para nós, e todo o cuidado que temos com nossas próprias vidas, sejam estendidos ao nosso próximo[9]. Aquele que ama a Deus, ame também a seu irmão.

Ao responder o escriba, Jesus o fez não só com segurança e autoridade de quem sabia o que respondia, mas teve sobretudo a legitimidade que nasce da coerência de quem fala aquilo que vive. Suas respostas eram insofismáveis, inquestionáveis, porque se provavam eficazes, a começar por ele mesmo, pois as tornava possíveis já que ele mesmo as cumpria em sua vida. E o amor de Jesus legitimou sua resposta ao escriba, calando seu inquiridor, de tal modo que ele mesmo se sentiu atraído pela mensagem do Reino de Deus.

Quanta gente vive testando Jesus? Quanta gente vive às margens do Reino, olhando por sua porta e por suas janelas, curioso, mas sem coragem de entrar. Quanta gente percebe que dentro desse Reino há tudo aquilo que sempre sonhou para sua vida, mas teme dar um passo para dentro de suas portas. Teme compromissos, teme mudanças, embora esteja cansado de tudo aquilo que vem vivendo. O escriba do texto que lemos, pretendia apanhar Jesus em uma "pegadinha", mas foi ele quem acabou tendo o coração fisgado pelo amor de Jesus. Amor presente em sua resposta, e flagrado em sua vida.

Se você entende que não estás longe do Reino de Deus. Se você está ouvindo isso, não fique parado na porta. Entre. Deus o receberá por seu amor e graça. Esteja como estiver, seja quem for. Uma coisa é certa: Ninguém lhe empurrará para dentro. Esse passo de fé precisa ser seu. Legitima e exclusivamente seu. Tão somente seu. Porque quem faz por obrigação, não é perfeito em amor.


Por Jânsen Leiros Jr


[1]  Mateus 23: 23
[2]  Mateus 23:24
[3]  Deuteronômio 6:4-5
[4]  Mateus 22:40
[5]  Gálatas 6:2
[6]  Oséias 6:6
[7]  1 João 4:7-8
[8]  1 João 3:6; 5:2
[9]  1 João 4:20-21

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Misericórdia quero. Mas quantos mais querem?


Por Jânsen Leiros Jr.


“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia."
Mateus 5:7 - JFA

Seguindo nosso passeio pelo Sermão do Monte, chegamos à quinta bem-aventurança. E como passamos um tempo longo desde o último texto, penso ser importante recuperar alguns princípios que entendemos determinantes, na compreensão do que podemos considerar uma introdução ao discurso desse sermão.

Podemos começar relembrando que as bem-aventuranças formam um conjunto harmônico, que apresenta características correlatas da personalidade transformada, de todo aquele que sinceramente se devota a Deus. Não se trata de um faça isso logo aquilo, tão presente na literatura positivista dos mecanismos de auto-ajuda, mas sim de uma apresentação abrangente do caráter daquele que está em marcha para o Reino do Céus. É, na prática, a tradução desse caráter em atitudes relativas a si mesmo, dirigidas em benefício de terceiros, e por fim, que dizem respeito a seu posicionamento social diante daquilo que crê.

Se lembrarmos bem, ou se alguém preferir recorrer aos textos anteriores, as primeiras quatro bem-aventuranças diziam respeito àquilo que o sincero e devotado discípulo pensa e faz, de si e consigo mesmo. Ou seja, nas primeiras quatro bem-aventuranças o cristão é tanto o agente, quanto o beneficiado de seu entendimento e conseqüentes atitudes. Mas nessa e nas duas próximas beatitudes, haverá um benefício estendido a terceiros. Uma atitude cujo o bem se amplia no foco do que é correto e probo realizar, deixando assim a mensagem de que tudo o que melhora em cada um de nós individualmente, precisa refletir e se traduzir em bem aos outros também.

Tais características introdutórias, portanto, são reveladoras à medida que coloca a relação do homem consigo mesmo, com os outros, e com Deus, na base de todo o ensinamento que se desenvolverá em seguida, definindo-as como a expressão prática da vida cotidiana de uma pessoa piedosa.

Mas por que razão os misericordiosos seriam bem-aventurados? Que vantagens a misericórdia poderá trazer ao misericordioso. A misericórdia seria uma moeda de troca? E que valor teria? De que adianta ao ser humano agir com misericórdia, se o mundo real pertence aos implacáveis? Vamos pensar juntos sobre tudo isso.

Podemos começar tentando entender misericórdia, como palavra sempre presente no contexto religioso daqueles dias. Ou seja, a palavra utilizada por Jesus estava tão inserida no contexto social judaico, que nenhuma dúvida causou aos discípulos que o ouviam naquele instante. E como não é nosso objetivo aqui nos aprofundarmos muito nos significados possíveis da palavra na tradição e na literatura judaica, ficaremos com o sentido mais geral e mais amplamente utilizado; o de benevolência da parte ofendida, à parte que descumpriu um pacto ou uma aliança. Uma graça. Portanto, no sentido prático, misericórdia é um sentimento de bondade, que se deve traduzir em atitude bondosa. Mais tarde Paulo relacionará a bondade como fruto do Espírito[1].

É importante ressaltar, que Jesus não está estabelecendo uma condição; quem agir com misericórdia receberá misericórdia. Se assim fosse, a misericórdia de Deus para conosco dependeria de nossa atitude, e assim neutralizaria a graça, pois a alcançaríamos por nossos próprios esforços. Mas antes, a exemplo das características anteriormente relacionadas, é próprio do cristão piedoso agir com misericórdia, por está em marcha com aqueles que receberão misericórdia. Ou seja, o cristão deve exercer misericórdia por gratidão livre e espontânea[2], dada a sua consciência da misericórdia de Deus que o alcançou.

Entre outros tantos exemplos de bondade em exercício na narrativa bíblica, há dois pelos quais tenho particular encanto; o bom samaritano[3] e a mulher adúltera[4]. Entendo que esses dois acontecimentos exemplificam profundamente o significado desse sentimento, esclarecendo respectivamente, a misericórdia como  ato de bondade, e a misericórdia como ato de perdão. No primeiro, o samaritano se compadece do estado em que se encontra aquele homem à margem da estrada. Sem cuidado e abandonado ali, ele certamente iria morrer. e não obstante a todos os seus importantes afazeres, decide priorizar o cuidado pleno daquele homem, sem medir custos. Um ato efetivo de compaixão e bondade. No segundo, há um contraponto particularmente especial; não seria ilegal apedrejar aquela adúltera. A lei mosaica lhes autorizava a tanto. Havia ali um delito cujo castigo era o apedrejamento até a morte. Jesus então apresenta-lhes a misericórdia como a alternativa benevolente, de quem abandona o direito, em benefício do pecador. Um ato de compaixão e misericórdia.

Além desses dois exemplos, a Epístola aos Hebreus apresenta Jesus como o sumo sacerdote misericordioso[5]. E tal misericórdia ganha consistência, na medida em que Jesus, a exemplo de nós seres humanos, passou por tudo o que passamos, sabendo na carne, as dificuldades e carências que sofremos em nossa vida real e cotidiana. Ele se compadece de nós, embora o pecado nos faça merecedores do castigo de morte. Onde o pecado abundou, superabundou a graça[6].

A bíblia nos ensina que o amor cobre uma multidão de pecados. Isso nos reporta a uma situação confrontante com a realidade que vivemos em nossos dias. Vivemos tempos difíceis, em que somos tocados por um ímpeto de vingança pessoal e social. Talvez motivado por corações endurecidos, talvez pela falta de ação do Estado, ou as duas coisas somadas, diariamente flagramos casos em que a vingança, travestida de justiça pelas próprias mãos, tem feito vítimas nas mais diversas camadas e grupos sociais. E o que se instaura, na ausência da bondade, da misericórdia e da compaixão, é a maldade, a indiferença e a intolerância. Afinal, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará[7].

Misericórdia quero e não sacrifício[8]. Os fariseus se escandalizavam porque Jesus vivia rodeado por pessoas que os fariseus consideravam impuras, e portanto contamináveis. Manter-se "puro" segundo a tradição judaica, requeria restringir determinados contatos e convívios, principalmente com aqueles que estavam à margem daquela sociedade. Acontece que a falta de um sentimento de misericórdia, na essência da relação com Deus, torna nula toda a ritualidade religiosa. E isso incomodava profundamente o próprio Deus, como relatado no Antigo Testamento[9]. Um cristão sem um coração misericordioso, é um cristão vazio do sentimento mais básico em um coração transformado; o amor[10].

A verdade é que um coração misericordioso é uma referência da bondade e do amor de Deus no mundo. E nós, cristãos, não podemos deixar de ter essa marca. Numa realidade mundial onde o ódio, a indiferença e a intolerância dominam as atitudes e reações mais instintivas, a bondade e a misericórdia de Deus precisa estar traduzida em nossas relações, no compadecimento com todos, acolhendo e cuidando daqueles a quem o Senhor nos envia.




[1]  Gálatas 5:22
[2]  Mateus 18:23-35
[3]  Lucas 10
[4]  João 8:1-11
[5]  Hebreus 2:14-18
[6]  Romanos 5:20-21
[7]  Mateus 24:12
[8]  Mateus 9:13
[9]  Oséias 6:6; Amós 5:21-23; Miquéias 6:6-8; Mateus 23:23-26
[10]  I João 2:9-11; 3:14-15; 4:19-20

domingo, 14 de junho de 2015

Unção; poder e capacitação



Por Jânsen Leiros Jr.


“14 Então voltou Jesus para a Galiléia no poder do Espírito; e a sua fama correu por toda a circunvizinhança. 15 Ensinava nas sinagogas deles, e por todos era louvado. 16 Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.17 Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar em que estava escrito: 18 O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, 19 e para proclamar o ano aceitável do Senhor.20 E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. 21 Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos."
Lucas 4:14-21 - JFA;

No último texto, em que falamos do episódio de Pedro andando sobre as águas no Mar da Galiléia, comentamos que a convicção de Jesus para realizar seus feitos, vinha da ação do Espírito de Deus em sua vida, no cotidiano de seu ministério, durante o tempo em que viveu sobre a terra. Mas por que dissemos isso? Que fatores nos levam a identificar as realizações de Jesus, como dependentes da atuação do Espírito Santo em sua vida? No texto de hoje nos deteremos nesse aspecto de sua vida com maior atenção; Jesus, o ser humano perfeito, segundo a vontade de Deus.

O texto de Lucas é bastante contundente, e apresenta com excelência a convicção que Jesus tinha de quem era, e do que haveria de realizar no mundo; hoje se cumpriu esta escritura. Imaginem o quão corajoso foi Jesus, ao afirmar que ele próprio era o cumprimento daquela profecia, tendo os seus próprios feitos como sinal de seu messianismo.  Tendo somente Lucas a narra esse fato, não há muito como analisar historicamente o ocorrido, de modo a medir com precisão quanto tempo se passou entre o fim dos quarenta dias no deserto, e aquele sábado na sinagoga de Nazaré. Mas é patente que Jesus já havia realizado muitos milagres e acumulado feitos expressivos diante do povo, pois sua alusão ao texto de Isaias[1], relaciona tais sinais à profecia.

De onde vinha tamanha coragem e convicção? Sabidamente Jesus corria o risco de ser considerado blasfemo, e por blasfêmia condenado à morte. Ora ainda que tal destino já lhe fosse familiar, haveria um tempo para que isso ocorresse, tempo ainda não chegado naquele sábado. Vim proclamar o ano aceitável do Senhor. O novo tempo em que Deus dará resgate aos pobres, liberdade aos cativos, visão aos cegos, e o cancelamento das dívidas aos falidos espirituais[2]. Jesus não tinha qualquer dúvida de que a ele estava conferida a responsabilidade de cumprir as escrituras. Mas por quê?

No versículo 14, o evangelista diz que Jesus retornou dos quarenta dias no deserto, no poder do Espírito Santo - en tê dunamei, no grego - que trás a idéia de capacitado para realizar algo; autoridade para e poder para. Isso trás à tona a realidade de que, o que Jesus realizava em seu ministério, tanto os milagres quanto a autoridade com que proclamava as boas novas dos céus, o fazia por total e plena capacitação pelo Espírito Santo de Deus, que nele atuava plenamente, à medida que também ele, Jesus, era plenamente submisso à vontade de Deus, dada sua relação íntima e comprometida com o pai.

É importante ressaltar que Jesus não estava investido de todo esse poder realizador por ser Deus, condição à qual abdicou em favor da humanidade[3]. Não por isso, mas porque e exclusivamente, se submetia à condução do Espírito Santo de Deus. A submissão é um paradoxo do comportamento cristão. Quanto mais submisso, dedicado, fraco e dependente, maior a capacitação, o poder realizador, a força e convicção de caminhar conforme a vontade de Deus. Pois quando sou fraco, aí é que sou forte[4].

A narrativa do livro de Gênesis sobre o pecado original, apresenta um homem rebelando-se contra Deus e sua instrução. A desobediência é instrumental, é apenas a forma reveladora da atitude rebelada do homem; serei igualmente deus, conhecedor do bem e do mal. Não dependo mais de Deus. Era o que estava por trás da desobediência, influenciando-a e a determinando como inevitável. A humanidade decidiu livrar-se de Deus, e de sua dependência dele. Viver atendendo às próprias vontades e satisfazendo os próprios desejos. A simples presença de Deus já os incomodava.

Ao contrário de Adão, desde cedo Jesus é treinado na obediência, submetendo-se a seus pais[5], embora já apresentasse indícios de que sabia contundentemente qual seria o seu papel no mundo[6]. Os evangelhos narram inúmeras passagens em que Jesus se retira para orar. Se afasta para estar a sós com Deus. Ele sabe que depende de seus Espírito. Mais. Ele deseja estar com Deus. O prefere a si mesmo. Tem seu prazer em realizar a sua vontade, ainda que essa vontade o conduza inexoravelmente à morte, e morte de cruz. Sua submissão é total. Ele obedece por amor. E na dependência do Espírito de Deus, torna-se capaz e convicto, para realizar tudo o que Deus lhe coloca por tarefa.

Vivemos tempos de falta de convicção, como falei no texto anterior. Mas isso porque nos falta submissão e entrega. O custo dessa entrega é medido. Nossa dedicação, comedida. Concedemos apenas aquilo que não nos é efetivamente essencial para nossos projetos pessoais, ou para a realização de nossos sonhos mais íntimos. Ao contrário disso, nenhuma realização de Jesus foi sem custo. Ele andou de cidade em cidade. Orientava seus discípulos diária e diuturnamente. Curava os enfermos, falava às multidões. E por fim, não bastasse tudo isso, sua dedicação e submissão, custou-lhe a vida. Se possível, passa de mim esse cálice. Porém faça-se a tua vontade[7]. Ele foi obediente até o fim[8].

Sejamos nós igualmente submissos, para que o poder realizador do Espírito do Senhor nos capacite a realizar tudo aquilo que Deus nos propõe. Que nossas vidas espelhem entrega e dedicação, para que convictos, sejamos veículos de bênçãos, para a honra e a glória de Deus.




[1]  Isaias 61:1e2
[2]  No Antigo Testamento, o cativeiro diz respeito ao exílio de Israel (Lc 1.68-74). Aqui, o cativeiro alude ao pecado (Lc 1.77; 7.47; 24.47; At 2.38; 5.31; 10.43; 13.38; 26.18). Jesus deu vista aos cegos, uma referência às Suas obras milagrosas (Lc 7.22), com implicações espirituais (Lc 1.78,79; 10.23,24;18.41-43). Jesus pôs em liberdade os oprimidos. Esse era originalmente o chamado de Israel, mas a nação fracassou em sua tarefa (Is 58.6). O que Israel não conseguiu fazer, Jesus fez. A ilustração aqui remete à realidade física e espiritual. Jesus proclamou o ano aceitável do Senhor, uma alusão ao Jubileu. Este acontecia a cada 50 anos e, nesta época, os débitos eram perdoados, os escravos conseguiam sua liberdade, as terras voltavam para seus donos originais. O Ano do Jubileu permitia que se recomeçasse (Lv 25.10). Jesus ofereceu o cancelamento total da dívida espiritual e um novo começo àqueles que cressem em Sua mensagem.

[3]  Filipenses 2:5-8
[4]  2 Coríntios 12:9-10
[5]  Lucas 2:51
[6]  Lucas 2:49
[7]  Lucas 22:42
[8]  Filipenses 2:8
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